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Paisagismo e Jardinagem

Árvores, minha vontade de entendê-las!

Muitos pensam que as árvores são todas iguais. As distinguem, apenas, quando estas florescem, separando-as pelas cores efêmeras que desabrocham durante algumas semanas. São os mesmos que não diferenciam a inteligência de um golfinho ou de um papagaio com a de uma anta (com perdão das antas). Eu, que contemplo – e planto – árvores há tanto tempo, suponho que elas brotam com expectativas muito diferentes uma das outras. Os álamos crescem muito rápido e os salgueiros também. Já os jequitibás e as oliveiras o fazem lentamente. Os primeiros são um tanto afoitos e correm contra o tempo como o velocista jamaicano Usain Bolt, vendo a vida passar de pressa. As árvores que optaram em desenvolver suas estruturas vagarosamente se comportam, em contrapartida, como filósofas, meditando seu papel na floresta em quanto endurecem seu cerne.

oliveira

Você, a esta altura do texto, deve pensar que as primeiras são um tanto irrelevantes, claro. Contudo desempenham papel importante, preparando velozmente o terreno para que as que fortalecem suas madeiras possam fazê-lo de modo aprimorado, sem dar muita importância ao tempo que isto levará. Em Santa Rita de Passa Quatro – SP, um gigantesco jequitibá é testemunha de coisas que aconteceram nos últimos três ou quatro mil anos (ninguém conseguiu precisar sua idade com exatidão); já imaginou? Ele está aí, em um campo, vivendo muito antes da era cristã. Poderia mencionar particularidades sobre a oliveira de Creta, as sequóias da Califórnia, as dracenas-draco de Socotra, enfim, seria possível escrever sobre fatos incríveis de muitas árvores cuja longevidade é surpreendente, mas o que quero é refletir sobre a permanência neste mundo, sobre a necessidade de esticar nossas vidas para entendê-la melhor, para ter esse tempo que nos permita existir; porque há motivos para isto. Quando me deparo com essas vetustas do reino vegetal me dá vontade de perguntar-lhes sobre suas vivencias, o sofrimento passado nos invernos rigorosos e o prazer dos orvalhos nas benevolentes primaveras. Queria ouvi-las, participar de seus relatos emotivos, rirmos juntos ou chorar abraçados. Sei que é quase impossível – quase, porque continuo tentando – e enquanto minha comunicação com elas seja difícil continuarei, teimosamente, a contemplar essas sábias vestidas de madeira para entender o que estou fazendo aqui, neste mundo tão complexo.

Raul Cânovas nasceu em 1945. Argentino, paisagista, escritor, professor e palestrante. Com 50 anos de experiência no mercado de paisagismo, Cânovas é um profissional experiente e competente na arte de impactar, tocar, cativar e despertar sentimentos nos mais diversos públicos.

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9 Comments

  1. Que espetáculo!!! Como eu gostaria de conhecê-las à fundo!!!

    • E porque não, Adele? Investigue, procure, observe. Sempre há tempo para conhece-las.

      As fotos da Freycinetia cumingiana são lindas!

      Abraços

  2. Amo árvores, e isso é, pra mim, o máximo da vida! Penso como você, amo vê-las crescendo, abrindo novas folhas, galhos, flores, me emocionam! Seres vivos, e creio pensantes, filósofos, observadores das vidas à sua volta.

    • Adorei sua observação, Silvia!

  3. Linda referência às árvores!
    Amo muito!

    • Olá Ana,

      Lhe agradeço o comentário!

      Abraços

  4. Que delicia de texto sempre muito bem elaborado por este mestre verde Raul!
    Obrigada por partilhar conosco historias e contos q nos fazem tao bem a alma.

    • Oh, Carla, você é muito gentil, obrigado pelo carinho!

  5. Que delicia de texto sempre muito bem elaborado por este mestre verde Raul!