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Paisagismo e Jardinagem

Depressão: A terapia do jardim

O divã do terapeuta pode estar em um banco qualquer, sob a sombra protetora de uma árvore.

Defendo a psicoterapia como tratamento para nossos problemas psicológicos, entretanto há recursos simples ao nosso lado que podem atenuar – e quem sabe até curar – melancolias, irritabilidade, ansiedade e as tristezas crônicas que nos afligem.

Felizmente nas últimas décadas a medicina obteve avanços notáveis, possibilitando a melhoria e a cura de um sem-número de doenças físicas. Medicamentos, cirurgias, reabilitações, transplantes e implantes aumentaram a expectativa de vida em praticamente o mundo todo. Mas como curar o desânimo? Como recuperar o bom humor, as energias perdidas, a libido? Será que os tranquilizantes, os ansiolíticos, os sedativos e outras drogas psicotrópicas podem prometer a recuperação do nosso equilíbrio mental? Certamente os efeitos positivos desses medicamentos são inegáveis, mas, também, suas consequências colaterais são bem conhecidas, levando à sonolência, ressaca, mudanças na pressão arterial, além de delírios e dependência.

Proponho uma alternativa para esse mal que aflige 10,8% dos brasileiros, conforme estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) e é a terapia do jardim. Nele o papel do psicólogo é desempenhado por um conjunto de criaturas genuínas que, de modo sereno e virginal, transmitem o equilíbrio descontaminado que não encontramos no contexto civilizado. Há na sabedoria das árvores, na reflexão das palmeiras e no bom senso de qualquer pequeno arbusto, de qualquer planta diminuta fabricante de flores e de perfumes uma experiência antiquíssima que podemos aproveitar para diminuir esse descontentamento constante que nos abate e nos leva ao prostramento. Observo desde minha infância uma relação harmoniosa no jardim que me leva a pensar que todo esse espaço bucólico carece de desesperos, de culpas e de mágoas. As plantas não se preocupam com nada, elas se ocupam apenas em relacionar-se com o sol, com a chuva, com o vento. Se enfeitam para atrair pássaros e toda uma fauna que as ajudarão a multiplicar-se. Nunca desanimam, às vezes perdem temporariamente suas folhas por causa do frio ou da seca, mas as recuperam com vigor meses depois. Elas sempre me serviram como fonte de inspiração, cada vez que sinto cansaço, mau humor ou algum vazio interior vou andar no jardim para “ouvi-las”, para aprender com a trepadeira que se abraça com o pau-jacaré que o isolamento social não é a melhor forma de viver e que preciso me inspirar nela para também correr para o abraço com os meus amigos.

Sei que as dificuldades financeiras, a perda de um ente querido, as doenças, a menopausa, os transtornos pós-parto e uma sorte de outros acontecimentos são características humanas que pouco tem a ver com a biografia de um vegetal. Contudo, e exatamente por isso, penso que podemos aprender com eles como viver de modo mais independente das coisas materiais, como relacionarmos melhor com a inexorabilidade da vida, como aceitar alguma parte do nosso corpo que não funciona como deveria enquanto que o resto do conjunto físico está em perfeitas condições, como a nossa idade não é sintoma de decrepitude, mas de maturidade e como receber esse filho que está entrando de repente nas nossas vidas.

Em resumo, o jardim esconde uma lúcida perspicácia que, sem afetação e de modo despretensioso, pode-nos ajudar a ser felizes!

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18 Comments

  1. Belas e verdadeiras palavras…Eu fico muito bem sempre que entro em contato com as plantas, as flores!
    Chego à sentir vontade de dormir! Tamanho relaxamento que as plantas nos proporcionam!

    • É verdade Deisy,

      Não se esqueça de procurar uma árvore que também lhe propicie bem-estar e abrace-a durante alguns minutos. Vai lhe fazer bem…

      Abraços

  2. Muito verdadeiro seu artigo !

    • Obrigado Waltraud!

      Abraços

  3. BOA DICA

    • Que bom que você gostou!

  4. Bom dia Sr. Raul Cânovas, me chamo Rael Santos e estou no ultimo ano de aquitetura e urbanismo. como projeto para o ttc pensei em um centro de apoio para quem sofre de depressão. Porém decidi integrar o paisagismo ao projeto, pois é sabido que o verde, as plantas podem ajudar psicologicamente as pessoas.
    Em minhas pesquisas acabei achando este seu site e achei muito interessante.
    gostaria de saber se o senhor tem artigos, trabalhos que possa me indicar para compor o material escrito do meu trabalho. ficaria bastante grato e seria de grande ajuda.
    seu trabalho é incrivel, parabéns.

    • Bom dia Rael,

      Lhe recomendo ler “Depressão e Suicídio”, do Dr.Luiz Miller de Paiva e também “O jardim secreto”, de Frances Hodgson Burnett. Acho que essas publicações lhe darão subsídios para seu trabalho.

      Muito obrigado pelo elogio!

      Abraços

  5. Como posso ajudar uma pessoa que sabe que tem sindrome do panico?

    • Oi Katiusa,

      É difícil lhe dar um conselho preciso, já que desconheço os sintomas dele. Penso que as terapias alternativas são sempre menos invasivas, sendo a natureza uma boa aliada nesses casos. No entanto o tratamento através da terapia comportamental pode levar o atendido a compreender o porque desse pânico e as causas que o levam aos momentos de crise.

      De qualquer modo a solidão e o afastamento das pessoas queridas são recursos negativos que devem ser evitados, estimulando o paciente a encarar um recurso terapêutico que restaure seu equilíbrio psíquico.

      É importante ressaltar que o corpo humano está sujeito a disfunções, não importa se essa moléstia afeta o fígado, o coração ou nossa mente. O que é realmente importante é que merecemos sempre um tratamento adequado que restabeleça nossa vida para voltar a ser felizes.

      Abraços

      • Amor e tranquilidade estão esquecidos nessa estúpida modernidade.Somos coagidos a viver o social, antes mesmo de Nós reconhecermos como individual.

        • Ana,

          …e também a ética é por muitas vezes esquecida. Entretanto não podemos negar que a humanidade avança em todos os sentidos. É claro, com algumas excepções.

          Abraços

  6. Elas sabem de tudo. Poucos sabem ver Deus na beleza, na textura, no perfume, nos tons… É apaixonante seu modo de ver a natureza e a vida.
    Parabéns.

    • Obrigado Maria Teresa,

      Contemplo a natureza com deleite e ela retribui isto me alertando a todo momento com as surpresas em flor.

  7. Do meu ponto de vista, a melhor terapia!

    • Lucia,

      As plantas escutam nossas confidencias mais reservadas…e não as revelam a ninguém.

      Agradeço seu comentário!

      • Perfeito. Capram nossas emoçôes e as transformam..

        • Sim Claudia, exatamente isso!