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Paisagismo e Jardinagem

Evolução

Progredimos espiritualmente, não há dúvida sobre isto. Mas e os outros três reinos: o mineral, o vegetal e o animal, também evoluem?

Penso que sim. Do contrário estaríamos acreditando que apenas nós seriamos os privilegiados avançando em direção às esferas mais puras. Na mineralogia observamos que há uma grande variedade de corpos sólidos se diferenciando entre si, pelas composições químicas e estruturas cristalinas. Alguns são escuros, outros claros, há os que brilham e os que são opacos. Os geólogos apontam rochas compostas por um único mineral e pedras, como o diamante, cuja complexidade lhe outorga uma dureza e brilho ímpar. As primeiras se desintegram em um longo processo e se transformam em areia, enquanto que o diamante, depois de talhado, ganha formas e reflexos. Vemos, por tanto, que há, entre os minerais, uma certa hierarquia e força mecânica.

Diamante

No reino vegetal há, também, uma graduação que ordena, pela evolução biológica, as famílias botânicas. As algas, por exemplo, são briófitas e não possuem folhas, caules e raízes, tampouco florescem e portanto não produzem frutos nem sementes. Habitam nas águas, preferentemente doces, e também agarradas em troncos úmidos, há 700 milhões de anos. Esse grupo é o mais antigo do reino vegetal e seus representantes raramente alcançam 40 centímetros de altura, permanecendo de modo rasteiro; já as angiospermas contam com famílias numerosas, com órgãos bem definidos e, mais evoluídas, fornecem material para a avifauna e seres humanos: madeira, fármacos, alimentação, vestuário, combustíveis, borracha, forrageiras, ornamentação, etc.

Uma família em particular chama minha atenção. É a família Arecaceae (antiga Palmae ou Palmaceae) que reúne mais de 2.600 espécies de palmeiras ou coqueiros, como vulgarmente são conhecidos e abundam nos trópicos e subtrópicos há 94 milhões de anos – pouco, se comparado com as algas – sendo que algumas espécies se aventuram, cada vez mais, a lugares com climas frios, como é o caso da palmeira-moinho-de-vento (Trachycarpus fortunei), nas montanhas da China, suportando neve. As palmeiras demonstram uma grande vontade de colonizar a Terra inteira, levando não apenas suas propriedades físicas, como aquelas que as caracterizam fornecendo alimentação, através dos frutos, sementes, palmitos e moradia, oferecendo a madeira e as folhas para a cobertura de vivendas de indígenas e caboclos mas, também, ministrando exemplos de conduta que muitas vezes servem de modelo instruidor às plantas que convivem com elas. O coqueiro (Cocos nucifera) é prova disto. Surge nos oceanos Pacífico e Índico há mais de quarenta milhões de anos e graças às correntes marítimas coloniza as regiões costeiras das Américas, desde a península da Flórida ate o Sudeste do Brasil e as restingas africanas, desde o Sul da Mauritânia até Angola. Seu fruto era – e é – capaz de se deixar levar pelo mar por mais de três meses até chegar à uma praia de areia morna e, sentindo por fim a quietude serena do lugar, solta suas raízes para originar um indivíduo que comandará um agrupamento vegetal, à beira mar, graças a sua sombra e ao adubo produzido pelos detritos de suas folhas caídas. Bromélias (Neoregelia cruenta), salsas-bravas (Ipomoea asaralifolia), flor-canhota (Scaevola plumieri), periquitinhos (Alternanthera maritima) e erva-capitão (Hydrocotyle bonariensis), entre outras, faz parte dos oásis praianos ativados pelo coqueiro. Seu tronco flexível lhe permite movimentos suaves que lhe ajudam quando os ventos fortes agitam seu ambiente; nunca quebra, podendo cair para em seguida orientar-se verticalmente em direção ao Sol.

coqueiro (Cocos nucifera)

Igualmente as folhas pinadas (como penas de pássaros) mostram-se divididas a partir de uma coluna vertebral ou espinha dorsal, de onde partem numerosos folíolos, criando toda uma estrutura chamada de coroa foliar, possibilitando a passagem de tempestades violentas sem prejudicá-la, rasgando essas folhas. Por fim, analisando seus frutos, percebemos o valor nutricional que possuem, com teor elevado de sais minerais, como potássio, sódio, fósforo e cloro, assim como fibras importantes para hidratar o organismo. Na Segunda Guerra Mundial, era comum, na falta do plasma sanguíneo, o uso da água de coco para as transfusões dos soldados feridos, já que sua composição é quase idêntica ao sangue humano. Talvez por esse e outros tantos motivos o coqueiro é símbolo de paz e vitória, colocando-o em uma condição muito elevada entre as plantas que formam os biomas terrestres e, assim como João Batista, sempre aparece para nos trazer uma lição de equilíbrio harmônico e da flexibilidade necessária para evoluirmos como espíritos em constante melhora.

Imagino como deve ter sido o aparecimento das primeiras flores. Quando surgiram na Terra os pássaros, as borboletas e os outros bichos – ausentes até esse momento nas florestas – as plantas descobriram aos poucos que essa fauna poderia auxiliá-las na reprodução que, até esse momento, era feita pelos ventos, pelas chuvas e outros fenômenos climáticos. Como poderiam atrair toda essa zoologia para ajudá-las no transporte de pólen? Bem, seguramente, teriam que chamar a atenção pelo colorido, é por isso que pétalas verdes eram descartadas por não conseguir destaque no meio da folhagem. As vermelhas e as amarelas apareceram em número maior. Assim garantiram serem observadas a distancia, mas algo mais era necessário… O perfume! A avifauna preferiria aquelas que emanassem alguma fragrância atraente que antecipasse o sabor doce do néctar. Foi assim que jasmins, rosas, magnólias, lírios e violetas seduziam esses bichinhos que, ao mesmo tempo que se alimentavam, acabavam por carregar o pólen no corpo para depositá-lo em outras flores e, assim, auxiliar a reprodução delas. As abelhas, por exemplo, tiveram que desenvolver pelos plumosos e espessos no abdômen, para que esses grãos de pólen ficassem aderidos. As flores das assa-peixe, dos ipês, dos jacarandás e dos sabugueiros ficaram por muito tempo revoltados, vendo as abelhas se alimentarem das substâncias açucaradas que produziam sem terem a contrapartida de levarem esses grãozinhos que, diga-se de passagem, era na maioria das vezes pequenininhos e leves, como o do miosótis.

Oba! As flores, com muito esforço conseguiram evolucionar, mesmo aquelas que, perdendo espaço, tiveram que se contentar atraindo moscas e por isso imitavam cores e cheiros de carne podre ou de fezes, como é o caso do papo-de-peru (Aristolochia gigantea) que exala um odor nauseabundo. Até os cactos descobriram artimanhas para, mesmo em lugares desérticos, cativar alguém que os ajudasse na polinização. Os morcegos foram escolhidos! Eram perfeitos, porque durante o dia o sol muito forte não permitia um trabalho eficiente de qualquer animal, então essas centenas de espécies nativas das Américas se habituaram a soltar suas flores à noite, tomando o cuidado de usar cores claras e brilhantes para serem notadas na escuridão. É claro que tudo isto levou muito tempo, às vezes séculos, como qualquer processo evolutivo. Um caso interessante foi o de um cactos que, cansado da solidão do deserto, do sol inclemente e da falta quase total de água, deixou os espinhos para trás e rumou em direção da mata úmida, onde se abraçou a um jequitibá e feliz não parou de dar flores a toda hora. A flor de maio (Zygocactus truncatum) é um exemplo de evolução e de sentimentos bem trabalhados.

Já as coníferas são plantas gimnospérmicas e não dependem da avifauna para sua reprodução. O vento é o responsável pela dispersão das sementes. Araucárias, pinheiros, ciprestes, tujas, sequoias, podocarpos e outros quase cinquenta gêneros desta família, habitam regiões frias e são pouco sociáveis com outras espécies vegetais, assim como também com os pássaros e os outros habitantes da floresta, que raramente fazem seus ninhos na fronde delas. Não dispõem de folhas, sua folhagem é composta por agulhas que, ao cair, formam camadas impedindo o crescimento de outras plantas, devido a resina que possuem. Atualmente formam um grupo de 550 espécies, no entanto 34% delas estão em declínio e ameaçadas de extinção pela baixa adequação a poluição e ao convívio com o reino animal e os seres humanos. Enquanto isso milhares de árvores e plantas arbustivas nos abastecem de frutas que, muitas vezes independentemente do melhoramento operado pelos cultivadores, aprimoram seu sabor aumentando a doçura e poder nutricional.

Constatamos então que há uma evolução no Reino Vegetal. Do mesmo modo que progredimos como pessoas, as plantas aprimoram suas virtudes acompanhando o desenvolvimento material e espiritual do gênero humano.

Os animais? Bem, entre eles há, igualmente, uma contínua modificação visando o refinamento. Os dinossauros, o tigre dente de sabre, o mamute peludo, a preguiça gigante, o lobo da Tasmânia e o pássaro dodô, entre outros, deram espaço para uma fauna mais habilidosa e afinada com as últimas eras históricas, como o cavalo, o cachorro, o orangotango, o papagaio, o golfinho, o elefante e o porco que convivem com os humanos neste período conhecido como Holoceno, começado há 12.000 anos, quando as “eras de gelo” ficaram para trás permitindo um mundo mais benévolo, bem como promissor para nossa evolução espiritual.

Conclui-se, por tanto, que a evolução não se restringe aos seres humanos. Vivemos em um planeta em constante avanço e outros três reinos: o mineral, o vegetal e o animal, da mesma forma, progridem acompanhando nossa permanência e nossa caminhada neste plano terreno.

Raul Cânovas nasceu em 1945. Argentino, paisagista, escritor, professor e palestrante. Com 50 anos de experiência no mercado de paisagismo, Cânovas é um profissional experiente e competente na arte de impactar, tocar, cativar e despertar sentimentos nos mais diversos públicos.

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6 Comments

  1. Que texto primoroso!!!!

    • Obrigado, Janaina!

  2. Vinha acompanhando seus posts no Facebook mas ainda não tinha lido os textos. Muito bons.
    Gosto de plantas e já vi que por aqui vou aprender.
    Obrigado por compartilhar.
    Rodrigo

    • É bom saber que posso te ajudar, Rodrigo.

      Abraços

  3. Gostei muito!
    Só não entendo onde arruma tempo para escrever!

    • Ah, minha querida Sandra, são 12 a 14 horas diárias de segunda a segunda destinadas ao trabalho que gosto.