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Paisagismo e Jardinagem

Lembrando Roberto Burle Marx

Há vinte anos o genial paisagista brasileiro partia deste mundo para cuidar dos Jardins do Éden.

Se tivesse que escolher um brasileiro, para nos representar frente a uma comissão de extraterrenos ávidos por descobrir as diferenças entre todas as nações deste nosso pluralístico planeta, minha preferência, dentre tantas figuras nativas, seria: Roberto Burle Marx.

Sei que posso ser questionado por não optar pelo mestre Portinari ou pelo Aleijadinho ou até quem sabe, por Carmem Miranda, nossa embaixatriz nos anos quarenta e cinqüenta. Imagino que muitos vão apostar em Machado de Assis, Villa Lobos ou em Rachel de Queiroz ou no nosso cientista maior: Oswaldo Cruz.

Jardins do Aterro do Flamengo – Rio de Janeiro, Brasil

Contudo, me permitam cometer uma terrível imprudência. Digo isto, porque as comparações resultam sempre em subjetividades pouco confiáveis. Mesmo assim, arriscaria a dizer que a historia das artes plásticas produziu pintores e escultores mais conhecidos que aqueles mencionados. Celebridades mesmo são: Da Vinci, Gauguin ou Marcel Duchamp; estes gozam de uma popularidade universal. Da mesma forma – a pequena notável – ficaria em um lugar distante no ranking das artistas famosas de Hollywood e, exemplificando, Shakespeare, Mozart ou Agatha Christie, são cultuados nos cinco continentes e não apenas aqui, no Brasil, ou nos seletos redutos intelectuais no mundo afora. Cientistas? A lista é riquíssima: Pasteur, Einstein, Lavoisier, Darwin e tantos outros.

Calçadão de Copacabana

Por esse motivo, meu brasileiro preferido é ele. Este operário das artes foi, sem equívoco, o maior paisagista da historia. Mais benevolente e sentimental que André Le Nôtre, o homem que projetou os jardins do Palácio de Versailles, já que trabalhou sem esquecer o ser humano comum. Mais profundo que Giacomo da Vignola, o arquiteto renascentista que influenciado por Michelangelo, desenhou os espaços verdes de Villa Lante e Villa Farnese, já que ao contrário do italiano, valorizou a flora de nosso país. Mais importante que Capability Brown, pai da jardinagem paisagística inglesa, porque agregou as cores nativas a seus projetos.

Mas a razão fundamental em que minha escolha se apóia, é o fato dele não ter transformado sua obra em um serviço estético e sim, em imagens convertidas em paisagens que continham a síntese de uma nação: a sua alegria, seu expressivo colorido, a diversidade que nos distingue e que é representada pela nossa riquíssima flora e, por fim, a convicção de que não devemos universalizar o jardim. Precisamos cultivar nossa própria paisagem.

Roberto Burle Marx foi, além de paisagista: botânico, pintor, ceramista, escultor, muralista, tapeceiro, cenógrafo e designer de jóias. Foi um “bon vivant”, culto quando cantarolava uma ode de Schubert, com sua voz de barítono e quase um alquimista, na hora de preparar uma feijoada. Seus ensinamentos continuam vivos naqueles que, como eu, acreditam em um jardim brasílico, cheio de vigor e, ao mesmo tempo, magistralmente adicionado de ternura.

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4 Comments

  1. Linda admiração que sente, que sinto, compartilho, interno e externamente nas mais coloridas criações. Gosto muito de te ouvir e ler, parabéns pelas palavras leves e profundas que tanto tocam a alma. Burle Marx… muitos em um só. Bjos. Marina Vidal

    • Obrigado pelo reconhecimento, Marina. Sua emoção é também minha.

      Abraços

  2. Raul querido… adorei!!!Será uma honra para todos nós, brasileiros, sermos representados por Burle Marx, em qualquer planeta.Ninguém valorizou mais a nossa flora que ele. Trabalhos maravilhosos. Amo todos.
    Abraço.
    Olir

    • Que bom que gostou, Olir, a memória desse gênio deve ser preservada.

      Abraços

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