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Paisagismo e Jardinagem

Omar e as tamareiras

Vivia no Vale do Draa, no sul de Marrocos. Do mesmo modo que seus ancestrais, 6.000 anos a. C.

Oásis de tamareiras em Draa

Oásis de tamareiras em Draa

Seu orgulho era o de pertencer ao povo berber, ser um amazigh, isto é, um homem livre, como pode ser traduzida esta palavra que encerra um conceito muito amplo numa das línguas dos berberes. Jactava-se de ter no seu quintal as mais lindas tamareiras que alguém poderia imaginar. Não que ele as comparasse com outras crescendo em regiões distantes do Al-Magreb, já que nunca seu camelo o levaria para longe, mas os tuaregues, que ocasionalmente passavam com suas caravanas pelo vilarejo, elogiavam os frutos dessas palmeiras que, como ele próprio falava tinham “os pés no barro e a cabeça no fogo” referindo-se ao fato de crescerem graças à umidade fornecida pelo Rio Draa, suportando o sol calcinante das tardes, quando a temperatura alcançava 50° à sombra. Realmente essas tamareiras eram especiais. Há mais de trezentas variedades de Phoenix dactylifera, entretanto Omar usufruía da variedade “Deglet Noor”, literalmente “dedo de luz”, como era chamada a rainha das tamareiras, a única cujos frutos eram verdadeiros sois em miniatura.

Omar

Omar

Omar era um homem simples, de uma desafetação quase ingênua se comparada ao cotidiano vivido pelo habitante das cidades ocidentais. Cuidava de suas ovelhas e de suas cabras, colhia os frutos das três oliveiras plantadas, sabe Deus quando e por quem, pescava às vezes no rio, plantava milho e pegava tâmaras subido em uma rudimentar escada com um serrote e uma corda, que amarrava cuidadosamente nos cachos imensos. No meio desse oásis morava sem nenhuma afetação, mas com o conforto maior daquela felicidade herdada de seus ancestrais.

Certa vez, um forasteiro chamado Jean, contou-lhe uma história cujo protagonista era Ṭāriq ibn Ziyād al-Layti, ou simplesmente Tarik “O Pegador”, um general berber que liderou a invasão moura à Espanha no século VIII. O francês lhe disse que o homem era valente e que os visigodos que habitavam a Península Ibérica não conseguiram conter o ímpeto do exército de Tarik, rendendo-se no final de uma luta sangrenta. Omar ouvira a narrativa, fascinado, enquanto sua mulher servia-lhes shuá, um prato a base de cordeiro, acompanhado por thamrikt, um purê de feijão com azeite de oliva.

Cachos de tâmaras

Cachos de tâmaras

Os anos se passaram, Omar enviuvou, seus filhos foram morar em Marrakesh, coisas de meninos modernos, ele disse e por fim ficou velho. Um velho berber que não esquecera nunca dessa história que lhe contara um estrangeiro, com roupas estranhas e sotaque diferente. Jamais entendera porque alguém abandonaria sua terra natal, para conquistar outra desconhecida, totalmente alheia daquelas coisas do dia-a-dia. Como se arranjaria Tarik e sua gente para curar um resfriado ou diminuir a febre, ou controlar uma diarreia sem as preciosas tâmaras que, além de gostosas, eram imprescindíveis na medicina caseira que ele conhecia tão bem. Omar tornou-se um sábio dentro de sua simplicidade, porque compreendera que a conquista maior era saber contemplar seu oásis de tamareiras. Para que correr montado em cima de um cavalo atrás de horizontes inalcançáveis? Por que perseguiria quimeras ignoradas?

O tesouro de Omar estava no seu coração, não precisara conquistar nada mais valioso… devia apenas preservá-lo.

Raul Cânovas nasceu em 1945. Argentino, paisagista, escritor, professor e palestrante. Com 50 anos de experiência no mercado de paisagismo, Cânovas é um profissional experiente e competente na arte de impactar, tocar, cativar e despertar sentimentos nos mais diversos públicos.

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6 Comments

  1. Se Amar era o segredo de Omar.
    Omei !!!

    • Adorei seu comentário, Gustavo!

  2. Adorei a mensagem dessa bela história.
    Vou guardá-la no meu coração.
    Gratidão.

    • É o melhor lugar para preserva-la Angelita!

      Abraços

  3. lINDO….ADOREI…..NA VERDADE TODOS OS TESOUROS ESTÃO EM NOSSO CORAÇÃO…
    BJOS MEU MESTRE QUERIDO!