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Paisagismo e Jardinagem

Como medir a beleza de um jardim?

Meu pai era um adulador nato, dizia que olhando no fundo dos olhos de uma mulher descobriríamos as belezas ocultas que sua alma revelava.

Ele, também paisagista, acreditava que a estética tinha nuances, maneiras de ser analisada. Acho que tinha razão, analisemos juntos: os corpos das modelos que Rubens usou na sua obra “As Três Graças”; eram bastante rechonchudas, não é?

E as figuras que Modigliani representava nas suas telas, com seus longos pescoços? Outro exemplo a ser lembrado é a Torre Eiffel que quase foi demolida, poucos anos depois de inaugurada por considerá-la de mau gosto, mas seu valor como uma antena de transmissão de rádio a salvou. Os exemplos seriam intermináveis, demostrando que o julgamento não obedece um juízo universalizando as ideias.

Acho que essa questão sobre a beleza é relativa e deve ser analisada de tempos em tempos, de modo a ficarmos abertos frente a hipótese de que nossa maneira de analisar a harmonia das formas é dinâmica e se transforma constantemente. O que hoje pode ser de bom gosto, amanhã pode ser tachado de kitsch, segundo os formadores de opinião que nem sempre são artistas, filósofos ou críticos de arte.

Interesses comercias ditam normas de consumo, segundo valores que pouco tem à ver com a graça e a poesia que o belo sugere, usando-se de uma mídia nada intelectualizada, na maioria das vezes.

Até 1935, por exemplo, o Caladium, o tinhorão como foi apelidado pelos cariocas, tornou-se um objeto de desejo, para de repente ser vista como cafona; outra planta que foi extremamente popular e a espada-de-são-jorge, trazida pelos escravos nos navios negreiros foi descartada dos jardins e agora retorna com sucesso. É por esse motivo que devemos mover-nos dentro da nossa própria lógica, estimulados por um cotidiano que naturalmente nos leve à julgar o que é aprazível segundo nossos próprios princípios estéticos, que devem ser sempre norteados pela flexibilidade.

E não apenas a flexibilidade, mas também a audácia de expressarmos, provocativamente, as complexas fases da criatividade, inovando sempre. Se não renovarmos a estética, ficaremos alienados e condenados a contemplar a mesmas coisas eternamente, de um modo conservador e chato. Contemple a paisagem desprovido de juízos preconcebidos. Observe-a como se fosse uma mulher que transluze sua beleza interior… quando iluminada por um sorriso que alguém lhe provoca.

Raul Cânovas nasceu em 1945. Argentino, paisagista, escritor, professor e palestrante. Com 50 anos de experiência no mercado de paisagismo, Cânovas é um profissional experiente e competente na arte de impactar, tocar, cativar e despertar sentimentos nos mais diversos públicos.

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4 Comments

  1. Excelente texto.

    • Obrigado pelo comentário, Márcia!

  2. Ótimo texto.

    Cabe a auto reflexão de não pararmos no tempo e também de sempre estarmos abertos a novas experiências.

    Abraços.
    Cláudio

    • Obrigado Cláudio,

      As novas experiencias são fundamentais no processo criativo.

      Abraços