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Paisagismo e Jardinagem

O jardim que cura

O paisagismo hospitalar é um instrumento auxiliar na recuperação dos pacientes.

Dr Roger Ulrich

Dr Roger Ulrich

Ainda é incipiente o uso deste recurso como uma ferramenta terapêutica no Brasil. Nos Estados Unidos, pesquisas recentes apontam que 82% dos diretores de hospitais concordam com os espaços verdes como promotores de cura e segundo o psicólogo ambiental e professor de paisagismo Dr Roger Ulrich, que conduziu este trabalho, 10% dos familiares que acompanham pessoas na UTI, durante dois a quatro dias, sofrem como consequência de estresse. Isto demonstra, segundo o Dr Ulrich, que leciona na Universidade de Aalborg, na Dinamarca, na Universidade de Firenze, que é co-fundador do Centro de Saúde e Design da Universidade de Texas, conselheiro do Serviço de Saúde da Inglaterra, membro do Centro do Projeto Saúde da Califórnia e convidado no Japão para assuntos ligados à arquitetura paisagística hospitalar, que plantas específicas incidem, emocionalmente, não apenas nas pessoas internadas, mas também naqueles que os acompanham em intermináveis vigílias nas salas de espera. Ele aponta, do mesmo modo, que pacientes depois de cirurgias, consomem apenas 35% dos analgésicos, administrados normalmente, quando internados em apartamentos cujas janelas lhes propiciassem vistas com áreas ajardinadas.

Boston Children’s Hospital

Boston Children’s Hospital

Há evidências científicas confirmando que um espaço ajardinado pode acelerar a cura ou, pelo menos, minimizar o sofrimento mental e físico, permitindo que as pessoas se sociabilizem ao ar livre. Doenças cardíacas, internações longas causadas pelo câncer, Alzheimer ou demência apresentam sensíveis progressos nestes ambientes. Segundo Richard Mitchell e Frank Popham, em estudo britânico publicado em 2008, pessoas de baixa renda que moram em bairros beneficiados por praças e ruas arborizadas tinham diminuído em cerca de 50% o índice de mortalidade por doenças cardiovasculares, se comparado com outros bairros em que a ausência de vegetação era notada. Obviamente estou falando de um design de exteriores baseado em um trabalho profundo, que leve em conta à arquitetura do espaço, somada a escolha do mobiliário adequado e as plantas que proporcionem esse bem-estar ao qual nos referimos. A melhora da saúde está vinculada ao tratamento médico e ao sentimento pessoal de recuperação que cada indivíduo experimenta junto a uma natureza construída no local de internação onde ele – e também o corpo médico – podem encontrar refúgio seguro, aliviando dores e tristezas.

Craig Hospital, Colorado, USA

Craig Hospital, Colorado, USA

Esse indivíduo biológico carrega, atavicamente, um vínculo com o ambiente bucólico e ancestral no qual reage naturalmente às situações de perigo, como animais peçonhentos, precipícios ou trevas e se acalma perante um por do sol emoldurado por delicados bambus, que balançam ao compasso da brisa crepuscular. Sua memória o auxilia, em contato com a luz natural e o ar que revigora, nos processos de relaxamento que são de vital importância para sua recuperação. Devemos entender que a casa genuína do homem não fica na cidade, mas em uma área rodeada pelo verde, onde o teto é o céu e o sol projeta luzes e sombras rendilhadas pelas árvores. É essa a inspiração que o paisagista deve colher, deixando de lado artifícios simplórios, como vasinhos com plantinhas podadas e fontes de gosto duvidoso que, em vez de serenar o paciente, o obriga a fazer uma leitura incômoda de um cenário grotesco. Ele necessita de um ambiente acolhedor, sem exigências que lhe obriguem raciocínios profundos e o jardim tropicalmente natural não cobra por um espetáculo patético, ele é um pedaço de natureza proporcionando formas, cores, aromas, sons, sabores e texturas, restaurando traumas físicos e mentais e assinalando visões positivas para que ele confie nas suas capacidades de recuperação. Devemos, quando projetamos jardins de cura, afastar-nos um pouco do aspecto visual, já que ele não será pensado apenas para ser olhado, mas para ser vivido tridimensionalmente, aguçando emoções quando, por exemplo, uma pedra atapetada pelos musgos seja sentida por alguém fragilizado patologicamente. Será ele quem vivenciará o espaço e não nós, observadores saudáveis que temos que apenas cumprir a tarefa de interpretar a dor de quem sofre, concentrado-nos na missão curativa e não, meramente, nos modismos ou tendências do design paisagístico.

Unidade de terapia intensiva em hospital de Massachusetts, USA

Unidade de terapia intensiva em hospital de Massachusetts, USA

O ser humano se comunica com a paisagem que o rodeia de forma semiótica, isto é, através dos símbolos que apreendemos desde tempos antigos, confrontando-se, instintivamente com formas emblemáticas da natureza. Segundo Jung são arquétipos incrustados, profundamente, no inconsciente coletivo de imagens que existiram desde tempos adâmicos, criando modelos, sonhos e narrativas sempre relacionados com o remoto ambiente pastoril. Atenta a isto, a medicina se vale dos jardins desde a antiguidade. Os Jardins Suspensos da Babilônia não eram compostos exclusivamente por plantas ornamentais, mas também com outras; como alecrim e açafrão para remediar enfermidades. Na Antiga Grécia, Teofrasto cultivava um jardim terapêutico com árvores, flores e ervas medicinais. Galeno e Dioscórides eram herbolários no Império Romano e Avicena, o médico mais relevante da época conhecida como “Era de Ouro do Islão” incentivava jardins mouriscos para o conforto psíquico dos árabes. Na Idade Média os mosteiros reservavam pátios para o cultivo de ervas medicinais e o recolhimento prazeroso dos monges que influenciavam os médicos a construírem hospitais rodeados por jardins de recuperação. Acredito que tudo isto está, realmente, alicerçado em narrativas como a do Jardim do Éden, da Arcádia grega, do pairi-daeza dos persas ou dos Campos Elíseos, o paraíso na mitologia grega. Todos nos remetem a um lugar belo e perfeito, onde estamos protegidos de todo mal. Quiçá sejam bons exemplos, servindo de inspiração anímica para os jardins de cura.

São diversos os modelos destes jardins, como diversas as doenças e transtornos que preocupam à medicina. E contemplativos ou idealizados para atividades de horticultura e jardinagem, deverão ser projetados de modo a ficarem sempre abertos, no sentido prático e psicológico, visando a sanidade progressista do século XXI.

Raul Cânovas nasceu em 1945. Argentino, paisagista, escritor, professor e palestrante. Com 50 anos de experiência no mercado de paisagismo, Cânovas é um profissional experiente e competente na arte de impactar, tocar, cativar e despertar sentimentos nos mais diversos públicos.

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16 Comments

  1. Amei! Havia tempos não lia artigo tão enriquecedor! Agradecida!

    • Lucia,

      Sua ponderação é muito importante para mim. Agradeço!!!

  2. Raul,
    Texto fantástico!
    Um complemento riquissimo ao que realmente acredito ser um verdadeiro jardim para todos nós.
    Obrigada

    • Paula,

      Muito obrigado pelo comentário. Gostei do “verdadeiro jardim”.

      Abraços

  3. Ótimo, achei magnífico, essa terapia deve vir para o Brasil, a natureza toda vida foi e,vai ser sempre a cura da alma.

    • Obrigado pelo comentário, Márcia!

  4. Amei essa reportagem. ..vamos colocar em ação ak no Brasil…

    • Pode contar comigo, Rebeca!

      Abraços

  5. Raul, faço deste tema meu credo. Não restrito ao ambiente hospitalar, mas à vocação natural do humano em conviver com sua origem: um lugar cujos ângulos são raramente retos, onde as cores são pouco uniformes, as superfícies quase nunca são lisas, as texturas variam, os aromas não ardem as narinas, os sons não agridem os ouvidos e o convívio com suas estruturas exige respeito mútuo.

    • Perfeito Andre,

      Você complementou o texto de modo, não apenas lapidar mas, também primorosamente. Obrigado pela colaboração.

      Abraços

  6. Não só auxilia na cura dos pacientes e ameniza o stress dos acompanhantes, mas trata também os profissionais da assistência que ficam em contato contínuo com situações de stress que é compartilhada e parte absorvida durante o trabalho. Esse contato sensitivo com o meio que com certeza desencadeia uma melhor qualidade no atendimento. O paisagismo mesclado a configuração dos espaços nas unidades de saúde independente do seu nível de complexidade, é um dos instrumento chave para se atingir a ambiência em saúde. Acho que deveria existir mais pesquisas científicas que revele como a arquitetura e o paisagismo possam ser instrumento de terapia para diversas patologias de forma mais profunda.Bom texto, parabéns.

    • Boa noite Adriana,

      Em primeiro lugar lhe agradeço a mensagem e em seguida quero colocar minha consonância com suas palavras.

      É verdade que, além dos pacientes e acompanhantes, os médicos e enfermeiros sofrem de estresse causado pelo trabalho nos hospitais. Há um índice alto de depressão entre os profissionais da saúde – com maior ou menor número conforme a especialização – agravado pelo ambiente de trabalho descorado e carregado de tensão. Existe um campo enorme para ser explorado por arquitetos, designers de interiores e paisagistas que, trilhado com ética criativa, pode levar mais conforto para todos.

      Abraços

  7. Raul
    Parabéns
    Que texto bom!
    Vc é um mestre e como conhece…fiquei
    Com muita vontade de ajudar as pessoas
    Nesses momentos tão difíceis
    Bjo gde

    • Ah Célia!

      Quando elogiam meu trabalho me sinto recompensado, mas quando a congratulação parte de alguém como você fico muito contente.

      De algum modo, as vezes quase que inconscientemente, estamos ajudando…as vezes com apenas um olhar de ternura.

      Beijos

      • Sou estudante de arquitetura e urbanismo, e meu trabalho final de graduação está sendo um projeto de jardins terapêuticos para um hospital da minha cidade, estou encantada pelo tema, gostaria muito de saber mais. Parabéns pelo texto!