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Paisagismo e Jardinagem

Uma invasão alienígena

Quando criança adorava filmes sobre extraterrestres que invadiam nosso planeta – sei que muitos adultos ainda gostam – e de algum modo,  sempre nós,  os terráqueos, vencíamos a parada.

O que a indústria cinematográfica de Hollywood ainda não rodou é uma película sobre o ataque das palmeiras. Hein? Como assim? Palmeiras invadindo o Brasil? Sim, as seafórtias, vindas da Austrália,  estão ocupando nossas áreas verdes, usurpando o espaço onde a flora nativa desenvolvia seus biomas.

Com uma astúcia sutil e uma bela silhueta se alastram nos nossos jardins e parques graças aos 3.000 frutos que cada cacho produz e que são dispersos pelas aves, causando um invasão biológica sem precedentes. Eu sei, ela é linda e paisagisticamente se distingue pelo efeito cenográfico que proporciona. Mas, e as nossas palmeiras? São muitíssimas delas colocando nosso país como o maior detentor em número de espécies. Macaúbas, jerivás, tucumãs, indaiás, babaçus, bacuris. Achou muitas? Têm muitas mais: butiás, carnaúbas, piaçavas, buritis, bacabas, catolés, licuris e o admirável  juçara que nos deleita com seus palmitos. Ah! Quase esqueço do açaizeiro, celebrizado pelo seus frutos, o açaí.

Imagino que serão muitos os paulistanos que, horrorizados, dirão: É um crime eliminar as seafórtias (Archontophoenix alexandrae, conforme a classificação botânica) dos nossos parques! Mas não é um equívoco maior permitir que elas se alastrem conquistando o espaço daquelas que são nossas e que, enfraquecidas perante a exótica, sucumbam paulatinamente até desaparecer por completo?

 Minha proposta é defender nossa flora, nossa brasilidade. Sem ufanismos baratos, mas com a vontade de preservar a dignidade das nossas matas verdejantes e genuínas.

Raul Cânovas nasceu em 1945. Argentino, paisagista, escritor, professor e palestrante. Com 50 anos de experiência no mercado de paisagismo, Cânovas é um profissional experiente e competente na arte de impactar, tocar, cativar e despertar sentimentos nos mais diversos públicos.

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8 Comments

  1. Raul, gostei muito desse texto. Eu escolhi p jardim dos meus filhos somente as nativas( ex: jucara) mas no terreno da casa já havia essa plantada ha 40 anos. Claro q eu não vou corta-la, queria saber qual era e me disseram q nos anos 70, 80 foi moda, uma febre aqui em Sp . Um bj

    • Oi Cecilia,

      Obviamente não sugiro sair por aí queimando seafortias. No meu jardim crescem, alegremente, três exemplares. Mas prevalessem dezenas de palmitos-juçara, conservando a identidade genuína da paisagem.

      Bjs

  2. Com tanta palmeira em Pindorama! ninguem se importa, nem sabe o que pode ser uma espécie invasiva… Só mesmo nosso Mestre Raul Cãnovas para nos ensinar!

    • Sandra,

      Muito agradeço seu comentário. Realmente importar palmeiras é tão esquisito como trazer de fora abacaxis e tocadores de pandeiro.

      Abraços

  3. É difícil imaginar uma flora estática em um mundo cambiante. As alterações climaticas , advidas do calientamiento global, global warming ou aquecimento global, selecionará novas espécies , mais adaptadas ao novo clima, esta é a base para a evolução . O Brasil, que sempre aceitou muito bem os migrantes, ainda mais se tratando de espécies de relevante interesse, como as seafótias, que fornecem alimentos diversos p a fauna e homem, beleza e altas taxas de resiliência, assim posto, a convivência harmoniosa entre plantas e pessoas advindas de vários pontos do planeta é saudável.Alguns casos requerem controle de populações, mas acredito que este não é o caso.

    • Caro Lailson,

      Eu sou estrangeiro e cheguei a este país há muito tempo. Nestas décadas todas harmonizei meus hábitos com os costumes brasileiros, tornando-me um “subespontâneo”. Isto também tem acontecido com grande parte da flora e a fauna exótica, como é o caso de cães, gatos, abacates e bananas.

      Entretanto forasteiros e exóticos nem sempre se comportam de modo a integrar-se a uma sociedade adotando suas práticas e rotinas. Alguns, como as seafortias, o chapéu-de-sol e a brachiaria, colonizam de forma abusiva em detrimento das nativas.

      Você já imaginou se eu tentasse, de forma abusiva, convencer meus amigos a ouvir tangos, comer bife de chorizo e dançar chacareras? Sem dúvida seria um comportamento invasivo e daninho para nossa cultura.

      Um outro detalhe que devemos considerar é o fato de nossa avifauna ter tido sempre alimento farto, fornecido pela vegetação nativa, desde os tempos em que o continente americano não sofria a colonização pelos europeios.

      Obrigado por participar deste debate. Sua opinião é importante colaborando para esclarecer este tema polêmico.

      Abraços

  4. Mas que discussao estimulante, Raul!
    Que bom! Eu tenho me preocupado com a globalizacao da paisagem, onde jardins, lindos precisa se dizer, sao iguais a Miami e todos iguais entre si. Claro que nao todos mesmo.
    Na verdade, copiar o lindo nao deveria ser problema nunca. Mas claro que da pra fazer bonuto com o “nosso”.. muito bonito mesmo!
    E, se vc diz que a Seafortia se alastra tao facilmente, talvez nao devessemos mesmo planta-las a torto e a direito.
    Tambem falando de palmeirizacao, me incomoda o plantio em avenidas por mais lindas que sejam porque sem a manutencao constante, dificil por aqui, uma folha caindo de muitos metros de altura., mesmo seca, pode matar alguem ou estragar muito um automóvel, ou causar um acidente…
    Vou apoiar esta causa! Bj

    • Oh Cecilia!

      Obrigado pelo comentário. Realmente há um abuso quando se plantam palmeiras nas ruas e avenidas, já que não combatem a poluição atmosférica (com exceção do jerivá), não oferecem sombra e são facilmente atacadas por lagartas.

      Bjs