O começo
Quando ainda era um aprendiz de jardineiro, um novato apenas na arte de entender o mundo vegetal, o destino deu uma empurrada na minha vida e me colocou no mesmo caminho de Pedro, Pedro ou Pedrito, como era conhecido por todos. Era um homem simples que trabalhava, empregado por meu pai, cultivando e formando jardins. Era simples mas, não ingênuo, porque a vida tinha lhe dado uma série de conhecimentos que embora empíricos, o tinham ajudado muito no velho ofício de escapar dos infortúnios.
Lembro que certa vez, por coincidência no início de ano, Pedrito me contou que esse era um espaço de tempo ideal para estrear uma porção de terra, e originar nela um jardim que mais tarde poderia ser não apenas bonito e chamativo, mas também, e sobretudo, pleno de sensações; ele me ensinou que era exatamente nesse instante que devíamos colocar toda nossa atenção para que dele mais tarde, brotassem as mudas sadias e robustas. Enquanto arava a terra, ele imaginava esse jardim cheio de novidades que iriam aparecer, até independente da imaginação do paisagista, mas que seguramente despontariam de maneira gostosa porque o solo tinha sido lavrado com muito cuidado, com muito esmero.
Imagino que assim deva ser estas primeiras semanas, inaugurando o ano com a fé de quem semeia campo fértil que foi sendo enriquecido pelas experiências, não importa se boas ou más, mas enfim, válidas para errar menos no futuro.
Como num jardim bem arquitetado é bem provável que surjam coisas boas que nos ajudem no nosso crescimento.
Pedrito, sempre falava que nos jardins que ele plantava só nasciam plantas boas, com flores sadias e às vezes até com frutos de sabor inigualável.
Crescimento

Na natureza tudo se desenvolve; no caso das plantas este progresso é lento, se você observar uma paineira ou um jacarandá vão lhe parecer imóveis, quase que paralisados no tempo e no espaço; apesar desta primeira impressão note que não são poucas as árvores que abrem suas folhas assim que os primeiros raios de sol aparecem, contraíndo-as na medida em que a noite se aproxima; não existem plantas estáticas, os vegetais progridem numa constante mutação, seja por fatores climáticos ou pela necessidade de garantir a perpetuação da espécie.

Nós, seres humanos, crescemos de maneira mais evidente, não apenas através do tamanho individual, mas também intelectualmente e até mesmo que lentamente, na ética do grupo social ao qual pertencemos; assim como os manacás que florescem simultaneamente em florestas localizadas em pontos distantes entre si, grupos de homens e mulheres organizados comunitariamente em pontos diferentes do planeta, tem metas muito parecidas; vejam por exemplo que enquanto os chineses inventavam o relógio mecânico, a muitos quilômetros de distância os árabes inventavam a bússola, e enquanto Diego Velazquez pintava com impressionante realidade a tela conhecida como ” As meninas” na Espanha, um jovem conhecido como Caravagio, em Roma, deixava uma escola caracterizada pela luz e pelos detalhes; os artistas pensavam de uma maneira também bastante parecida, como vocês podem perceber e em lugares diferentes.

Diego Velazquez, “As meninas”
Agora, vejam que cada etapa de nosso crescimento tem seus atrativos, uma árvore quando pequena antes de se tornar majestosa, atingindo sua altura máxima, pode deixar sua copa mais próxima de nossos olhos, permitindo que a contemplemos; ela aumentará seu volume à medida em que observe ao seu redor, aprendendo com aquelas mais velhas e sabidas a se alimentar e atrair os pássaros com suas flores; quando já anosa e respeitável poderá contemplar a mata, desde uma privilegiada altura e servirá de modelo para outras da mesma espécie que queiram expandir sua existência, no meio da mata.
Sem dúvida você e eu somos bastante parecidos com estas árvores, podemos aprender quando jovens e servir de exemplo na maturidade.
O importante é não apressar nosso crescimento, deixar fluir; as árvores mais belas são aquelas que ampliaram suas copas devagar, e nós, com certeza, seremos mais felizes, se com paciência esperarmos o momento oportuno para colher destas árvores os frutos maduros e gostosos.







