As tragédias no litoral
“Não há uma fatalidade exterior. Mas existe uma fatalidade interior. Há sempre um minuto em que nos descobrimos vulneráveis; então, os erros atraem-nos como uma vertigem”. Antoine de Saint-Exupéry

Pois é, nos últimos dias, diversas regiões foram castigadas por chuvas intermitentes, que ocasionaram deslizamentos de terra com enormes danos materiais e, o que é pior, perdas humanas. As manchetes destacavam: “Acaso infeliz” ou “Uma série de coincidências lastimáveis” e, até, “fatalidade”.
Eu, entretanto, me recuso a atribuir ao fadado destino esta catástrofe ambiental. A civilização tem sido bastante insensível com os sinais que o nosso querido planeta vem dando já há muito tempo, e esta bola redonda que chamamos de terra está doente e febril. Sua temperatura é preocupante e seu corpo mostra feridas abertas que não cicatrizam.
Abusamos dela sulcando-a de estradas que não levam em conta sua necessidade de respirar, implantamos bairros que atrofiam seu relevo e danificamos sua pele, sim sua pele, porque como nós, o planeta tem uma epiderme que o protege – ou você não sabia que sua cútis, o cabelo, os pelos, as unhas e as glândulas sudoríparas e sebáceas tem a função de protegê-lo, regulando a temperatura externa, poupando sua reserva de nutrientes. Além de conter terminais nervosos que lhe permitem enfrentar a vida de modo menos arriscado.
Céus! Como somos parecidos vocês, eu e o globo em que vivemos. Ele tem também uma espécie de pele que a protege e que é chamada de crosta. Essa camada flutua em cima de outras formadas por rochas e quando essa cobertura protetora é afetada ao mundo lhe acontece algo muito semelhante com o que sucederia se a camada membranosa, que forra nosso corpo, fosse machucada ou ferida.
Então porque não cuidamos dessa cobertura terrestre com a mesma dedicação que o fazemos com a nossa pele. Se procuramos sabonetes, xampus, desodorantes, cremes e tantos outros cosméticos apropriados, para manter-nos saudáveis e bonitos, porque não pesquisamos também o que vai manter sadio e com boa aparência o mundo que nos acolhe.
Vamos fazer um trato? Uma espécie de carta de intenções? Então anote:
- 1° Valorize a flora nativa, se puder plantar uma árvore, ótimo! Se não, pelo menos respeite e cuide daquelas que lhe são próximas.
- 2° Esqueça da enxada, capine menos. O “mato” é a cobertura protetora do solo e evita a erosão.
- 3° Escolha a espécie apropriada na hora de plantar. As árvores que abundam nas praias não crescem no alto da serra. As de regiões serranas não gostam do litoral. Do mesmo modo na floresta amazônica não vemos exemplares da
- caatinga e nesta, não há plantas de clima úmido.
- 4° Pare de admirar as paisagens de fora, elas pertencem a terras alheias. Temos nossa própria natureza e ela é riquíssima.
- 5° Faça como seu avô, conviva mais com as árvores, tire uma soneca embaixo de uma copa frondosa. É melhor do que ar condicionado!
Parafraseando Saint-Exupéry que certa vez disse que: “A ordem não cria a vida” penso que a vida (como os jardins) se recria numa desordem que não conseguimos ainda entender.







