O jardinismo da sobrevivência
O senso comum costuma informar que devemos ensinar o amor às coisas vivas e que o respeito ao meio ambiente só pode ser obtido quando envolve duras punições. Isso nos deixa com a sensação de que nascemos monstros e somos domesticados com a conscientização racional sobre a importância dos sistemas vivos na nossa sobrevivência. Mas a ciência parece indicar que é exatamente o contrário: já nascemos com uma profunda conexão afetiva com as coisas vivas. Esse amor inato à vida – chamado de biofilia – talvez seja a base biológica desse nosso interesse por jardins.

A biofilia aqui é levada à sério… Não basta só a certeza da água fresca, mas ficamos mais felizes se existem plantas em volta e peixes dentro dela! (Projeto: Eduardo Gonçalves)
A hipótese da biofilia foi originalmente trazida à tona pelo psicólogo Erich Fromm, que dizia sermos fortemente ligados a tudo que é vivo. Mas o conceito como entendemos hoje foi revisto pelo biólogo Edward Wilson, trazendo o entendimento que nossa espécie é ávida por estar cercada de diferentes formas de vida, como se isso significasse nossa própria sobrevivência. Mas qual a importância desse comportamento que nos faz gastar tantos recursos para cultivar plantas e criar animais que sequer comemos?
Evolutivamente, nossa espécie surgiu nas áridas paisagens da África Oriental. Desde então, a proximidade com plantas e animais parece ter indicado que nossas chances de sobrevivência aumentam quando outras formas de vida vicejam ao redor. Isto significa não só mais alimento, mas também mais sombra para repouso, mais matéria prima, mais remédios. A biodiversidade sempre foi nosso real supermercado. Isso pode ter moldado nossos cérebros a instintivamente buscar essa proximidade e, posteriormente, fomos capazes até de construir artificialmente tais refúgios.
E aí surgem os jardinistas, criaturas que buscam recriar ou aperfeiçoar os locais que tanto nos atraiam na aurora da nossa espécie. Para tanto, vale construir jardins, fontes, cascatas e tudo mais que traga algum fragmento do nosso paraíso psicológico. Então um jardim não é só desejável: é necessário! E cientistas não cansam de confirmar que até fotos de jardins aceleram a recuperação de pacientes hospitalizados.
Então, o que dizer da nossa cidade, cada vez mais cinza e estéril? Adoecemos de corpo e alma, circulando por caminhos que causariam desconforto a um hipotético visitante paleolítico. Só nos resta correr para nossas casas e descansar nossos olhos em um minúsculo vasinho de violeta ou no simpático abanar de cauda de um cão. Pode parecer bobo, mas penso que algumas vezes precisamos ser lembrados até das coisas que amamos!








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