A árvore cosmogônica
Há dentro de todos nós algo que vai além do tangível e que explica nossa origem.

No nosso inconsciente, uma árvore surge de forma atávica, dando-nos a entender que, em algum momento da longa história deste mundo, estivemos vivenciando primordialmente nossas emoções fundamentais. Ela, desde o ponto de vista anatômico, nos identifica mostrando quanto nos parecemos ou, pelo menos, nos assemelhávamos com elas muito antes da Atlântida. O tronco é o presente real e palpável, aquilo que está a nosso alcance e que compreendemos como uma verdade exata. As raízes seriam nosso passado nebuloso e distante que, de mãos dadas com uma alma imaterial e impossível de ser vista, nos obriga a ter algum tipo de fé, assumindo nossas origens; intuímos que existam e lhes damos crédito alimentando-as com as nossas crenças. Já a copa, formada por um emaranhado de ramos que apontam para o céu, exprimem a ideia do futuro que queremos alcançar e, quanto mais exuberante, mais repleto e animado será nosso porvir recheado de propósitos benéficos e salvadores.
O psicólogo alemão Charles Koch desenvolveu, em 1952, o “teste da árvore”, usado em todo o mundo para analisar a personalidade de mulheres e homens, expondo suas historias emocionais. No teste, os pacientes são convidados a desenhar uma árvore em uma folha de papel em branco. O psiquiatra ou psicólogo avalia, então, os diferentes aspectos do desenho dessa árvore, analisando o comportamento do indivíduo. Árvores servem como referências lincando-nos aos mundos mitológicos que escondemos no inconsciente, relacionando-nos com elas. Nos traços, manifestamos a simetria, o sombreamento produzido pela folhagem e outros riscos feitos com o lápis, que irão evidenciar nossas características arquetípicas. Detalhes como o de desenhar um tronco fino e torto pode indicar a insegurança cotidiana, em contrapartida, se firme e robusto, expressa confiança e estabilidade. Quando esboçamos raízes profundas e folhas grandes, manifestamos firmeza e extroversão, simplificando a clareza das nossas emoções.

Essa cosmogonia, esse nascer do universo, engloba mitos e lendas onde a árvore aparece como ligação testemunhal entre o conhecido e a misteriosa magia. Surge para fazer a junção do sobrenatural com o palpável. Na África, o baobá une o mundo transcendente ao imanente, acreditando-se que deuses muito antigos os plantaram começando a criação de todas as coisas. Na Europa, é o carvalho o encarregado de ser a “primeira mãe”; símbolo druída, significa que aquele que tem a sabedoria do carvalho e seu conhecimento profundo, abre a ciência compreensiva de toda a floresta. O poeta Hesíodo, contemporâneo de Homero, afirmava que a evolução dava-se de baixo para cima, do Erebos, a escuridão profunda, em direção da luz, representada por Hemera, a personificação do dia. Igual ao carvalho. Na América, os índios omahas, que habitam o sudoeste dos Estados Unidos, acreditam que o mundo, antes de ser real, estava na mente de Wakonda, a divindade suprema e que a vida humana flutuava entre a terra e o céu à espera de um bom lugar para uma existência corpórea; nem o sol nem a lua lhes foram propícios e depois de vagar perceberam que o fogo evaporou parte da água que cobria a terra por completo. Árvores cresceram e seus frutos permitiram que essas criaturas espirituais vivessem em carne e osso, enchendo de felicidade os filhos de Wakonda, o criador de tudo e de todos.
Não importa sua religião, nem sequer se você acredita em algo além daquilo que pode ver e tocar. Mas, se algum dia tiver a oportunidade de entrar dentro de uma mata cerrada, nutrida por árvores anciãs que elevaram suas copas até cobrir a luz do sol, você irã sentir o espirito do lugar, pairando sob a sombra densa e casta desse ambiente monástico.







