Sobre o Blog e Contato

Paisagismo e Jardinagem

O assassinato da árvore

Todo ano se preparava para florir intensamente e, metodicamente, espalhava suas pétalas na calçada. Até que um dia…

Jacarandá

Jacarandá

Floria desde sempre nos outubros e regozijava-se por poder aliviar as frias pedras do passeio. A rotina era realizada na forma do cumprimento de um dever, fazia isto há muitos anos, antes mesmo do calçamento da rua, das guias e dessa parte mais elevada, destinada às pessoas do bairro que andavam a pé. Olhava a paisagem, desde sua copa, surpresa com tantas novidades e com essa agitação cada vez maior no quarteirão onde vivia. Eram prédios, banca de jornal, um ponto de taxi na outra esquina, enfim. A cada ano surgiam coisas impensadas tempos atrás, quando ainda era uma mudinha pequena e fora plantada ai pelo seu Miguelzinho.

Seu Miguelzinho

Seu Miguelzinho

Seu Miguelzinho fora sapateiro, isto é, consertava sapatos. Fazia meia-sola, costurava o couro quando se separava do solado, coisas que hoje não têm importância, porque as pessoas não cultivam grandes amores pelos seus sapatos, apenas os exibem como troféus e não como algo que faz parte do cotidiano nos ajudando a andar por este mundo de modo mais leve e com mais ânimo. Certo dia, o remendão do bairro plantou a muda de jacarandá que trouxera de uma festa no Clube Português, lá nas Perdizes. Ganhara a muda no bingo e feliz decidiu plantá-la na frente da sua oficina, para alegrá-lo e atrair bem-te-vis que, nos galhos, poderiam construir seus ninhos.

Bem-te-vi

Bem-te-vi

E assim foi, como seu Miguelzinho sonhara: a árvore crescendo, o assobio daqueles pássaros, a florada na primavera e a chuva de pétalas violáceas que a brisa dos entardeceres propiciava. Valeu a pena as regas, o tutoramento inicial, por as formigas para correr e, especialmente, o carinho que sentia por essa caroba, como era chamada pelo vizinho paranaense que viera de Campo Largo, onde segundo ele, cresciam “aos montes” perto do rio Tibaji. Valeram a pena todos os esforços para que ela desenvolvesse com saúde.

Mas tudo isto foi há muitos anos. Seu Miguelzinho morreu e deixou neste mundo apenas saudades na freguesia e uma árvore entristecida. Até parecia que tinha perdido mais folhas que de costume, nesse mês de junho, quando seu benfeitor partira. Mas apesar da ausência do sapateiro o jacarandá continuou a dar flores nos outubros de sempre, foi persistente no seu gesto exagerado de salpicar a calçada com cores violáceas, criando tapetes rendados com a ajuda das luzes que os sois primaveris lhe enviavam.

Porém um morador, que se mudara há pouco tempo ficara incomodado com a “sujeira” que o jacarandá ocasionava e varria a calçada de forma quase obsessiva. Todas as manhãs surgia com uma vassoura para fazer o serviço. Com o tempo repetia isto também às tardes e, não satisfeito com a expulsão da flores, varria para tirar qualquer folhinha que aparecesse. Diariamente o homem dedicava-se a esta tarefa higiênica até que um dia, tomado por um acesso de ira incontrolável, deu sete tiros com seu 38, esvaziando o tambor da arma no tronco da árvore. Esta, a essa altura de sua vida, velha e cansada depois de tantas flores paridas, aproveitou as circunstâncias e foi fazer companhia à seu Miguelzinho. Desfaleceu resignada a não ornar mais o chão, nos outubros deste mundo e deixou sem lar uma família de bem-te-vis.

Nenhum jornal e nenhuma rádio noticiou o assassinato. O dendroclasta está solto, pessoa alguma se importou com o crime e, no velório sem flores, não compareceu ninguém, apenas uma revoada de pássaros trinou melancolicamente.

Responder Raul Cânovas Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 Comments

  1. Não sou seu Miguelzinho, mas plantei dois jacarandás, há seis anos atrás, que hoje estão em sua segunda floração. Vivo dizendo que limpeza demais é prejudicial e ninguém acredita. Vejo que atualmente as pessoas se preocupam mais com a limpeza e aparência natural dos lugares, do que com a vida que as rodeiam, seja das plantas, animais ou seres humanos. Continue publicando este tipo de artigo, pois acredito que se muitos falarem a mesma coisa, alguns poderão mudar. Obrigado pelo belo texto, “O assassinato do Jacarandá”.

    • Sou eu quem agradece sua mensagem carinhosa.
      Pessoas como você são indispensáveis neste mundo cada vez mais envolvido nas mega-cidades.

  2. O coração bate forte, ao ler sobre o assassinato do jácaranda, e nos faz refletir…Como nosso Deus foi sábio em cortar nossa comunicação com as plantas e pássaros, pois já imaginaram como seria triste ao invés de nos deliciarmos com os cantos maravilhosos dos pássaros quebrando o silencio do ar, tivéssemos que escutar os gritos e lamentos de árvores que estão sendo assassinadas a cada minuto?
    Quantas árvores mais precisarão ser sacrificadas para que o ¨ser humano¨ venha a ser consciente de que essa atitude em prol de seu bem estar está colocando em risco sua própria existência. Triste saber que num
    futuro bem próximo nossas crianças é quem pagarão um preço caro por não conseguirmos conter nosso egoísmo.

    • Obrigado pelo comentário. Espero que continue visitando minha página. Abraços