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Paisagismo e Jardinagem

O Jardim Silencioso de Ryōan-ji

No coração silencioso de Quioto, no centro-sul do Japão, onde as estações se deslizam como pinceladas sobre seda, repousa o jardim de Ryōan-ji — um campo de pedras e vazio, onde o tempo parece cessar. A lenda sussurra que ele nasceu das mãos do Mestre Sōami, pintor, poeta e jardineiro, conselheiro artístico do xogum Ashikaga Yoshimasa, o oitavo shōgun do clã Ashikaga, homem mais devoto à beleza do que à política, o jardim foi concebido por volta de 1488, não como um adorno, mas como um espelho do espírito.

Sōami, discípulo da estética silenciosa do Zen, não usou flores nem lagos. Com gravilha cinza-clara, rastelos e quinze pedras, moldou um mundo suspenso entre o visível e o invisível. Diz-se que ele caminhava em silêncio, escolhendo cada pedra como se fossem sílabas de um poema que não poderia ser escrito. O shōgun observava em reverência, pois também ele buscava algo além do poder: buscava o vazio que ilumina, o silêncio que responde.

See page for author, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Quando o jardim ficou pronto, Yoshimasa não perguntou o que ele significava. Sabia, como Sōami, que o verdadeiro sentido não pode ser dito. Alguns viam ilhas flutuando no mar branco. Outros, picos emergindo das nuvens. Um velho monge, sentado ali por horas, disse certa vez que era o próprio coração, dividido e calmo.

z tanuki, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

Há um mistério preservado entre os muros de barro que cercam o jardim: de onde quer que se olhe, nunca se vêem as quinze pedras ao mesmo tempo. Sempre falta uma. É a lembrança de que o mundo é imperfeito e é nessa imperfeição que reside sua beleza.

Séculos se passaram. O templo queimou, foi reconstruído, a cidade mudou. Mas o jardim permanece. Não cresce nem fenece. Ele apenas está. E ainda hoje, diante de suas formas simples, muitos se sentam em silêncio e descobrem que as pedras falam apenas àqueles que escutam com o coração vazio.

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