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Paisagismo e Jardinagem

Árvores – solução, não problema!

Os recentes episódios de queda de árvores no Brasil trouxe a pauta da arborização urbana para o seu noticiário principal, com destaque para os problemas que as árvores causam. O assunto é decisivo para a qualidade de vida nas cidades e, portanto, sua análise deve ser cautelosa, transversal e técnica. As cenas de “monstros” tombados em ruas, as notícias de mortes, prejuízos e transtornos graves, como destruição de carros (o “queridinho” do imaginário coletivo brasileiro), interrupção prolongada do tráfego e do fornecimento de energia para milhares de pessoas; tudo isso somado a uma análise superficial da questão criou um cenário desfavorável, reverberado em nível nacional contra a arborização urbana – uma espécie de sentimento antiárvores, em um país que já carrega um enorme sentimento de desvalor ao verde na economia, no urbanismo, na agricultura e na vida cotidiana das pessoas. Relativizando a questão, temos uma série de contrapontos.

Muitas árvores causam acidentes, matam e destroem por falta de cuidado, manutenção e de conhecimento técnico no planejamento, implantação e operação das suas estruturas – tal como ocorre com carros, ônibus, aviões, prédios, instalações de gás e ar-condicionado, fábricas, rodovias e barragens, todos eles com muito maior potencial ofensivo. Assim, o problema envolve falta de gestão, de técnica, de pequenos investimentos e governos que só pensam em grandes obras. Há também um problema de prioridade. Temos de nos preocupar antes com as grandes causas de mortalidade humana – carros, poluição, cigarro, obesidade, violência, falta de saneamento, caos na saúde pública, ineficiência do estado, etc. Por exemplo, as mortes no trânsito brasileiro foram quase 43 mil em 2010. A poluição do ar matou 17 mil pessoas no estado de São Paulo no ano de 2011, segundo o Instituto Saúde e Sustentabilidade; e 7 milhões de pessoas no mundo, segundo a OMS.

Árvores são extremamente eficazes e úteis para a saúde pública. Como condicionadores de ar que esfriam a cidade; estruturas sombreadoras que protegem das doenças do sol e do calor, conferindo acessibilidade aos caminhos; filtros da poluição assassina; amortecedores de ruído – protetoras do bom sono; promotoras da saúde mental, do lazer, do esporte, da cultura e do convívio das pessoas; fornecedoras de alimentos; protetoras de águas e fabricantes de chuva. As árvores nas cidades salvam e qualificam as vidas humanas em larga escala e a baixo custo. Por fim, são símbolos, esculturas e estruturas de eficácia, generosidade, acolhimento e democracia. Apenas isto – perante a monstruosa crise de valores que vivemos em nosso país– é motivo de sobra para as celebrarmos e protegermos.

As causas para quedas de árvores são institucionais, individuais e ambientais. Arborização urbana não é política pública valorizada na quase totalidade dos municípios brasileiros. Governos, concessionárias de energia e população não seguem critérios técnicos nem dedicam investimentos adequados para o plantio e a manutenção das árvores, nem reconhecem seu valor funcional. Estas, por sua vez, são estruturas físicas e seres biológicos e agronômicos complexos que exigem muito conhecimento técnico na sua implantação e manejo – escolha de espécies em função de vários atributos, avaliação de solo e condições ambientais e urbanísticas locais, preparo de covas, combate a pragas e doenças, adubações, podas de formação e de condução, tutoramentos e outras técnicas de suporte. Assim, elas precisam ser pensadas e manejadas por profissionais qualificados, e não por indivíduos leigos, dentro de um programa de arborização como infraestrutura (verde) em um contexto urbanístico, tal como acontece com drenagem, asfalto, energia e prédios. Os recentes fenômenos climáticos extremos que derrubaram muitas árvores no Brasil estão entre as conseqüências do aquecimento global – causado pela ação humana, entre elas o desmate excessivo em áreas urbanas e rurais. Ou seja, as árvores também são vítimas da nossa ação destrutiva do planeta, e sua presença maciça nas cidades é parte da solução ou amenização do problema.

Neste contexto, técnicos e ambientalistas precisam se posicionar com firmeza e coesão perante a sociedade e a gestão política, apresentando a questão sob todas estas óticas, com bons argumentos e meios. Governos e população precisam entender a importância das árvores e a necessidade da arborização como política técnica e estruturante para a melhoria das cidades. Planos Diretores de Arborização Urbana devem ter viés de empreendedorismo, comunicação social, planejamento técnico e operacional – não se transformando em mais uma peça acadêmica e de burocracia ambiental. Para tanto, um forte agrupamento em torno de profissionais, empresas, sociedades civis e instituições das áreas de paisagismo e arborismo é um primeiro e necessário movimento de todos que acreditam nas árvores como solução para cidades melhores.

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6 Comments

  1. Excelente artigo,que abrangeu de forma muito objetiva todos os aspectos que devem ser considerados para o adequado encaminhamento deste assunto, de vital importância para a manutenção da Qualidade de Vida dos Seres que habitam o nosso planeta.Utilizando as palavras do competente autor deste artigo,destaco:”Governos e população precisam entender a importância das árvores e a necessidade da arborização como política técnica e estruturante para a melhoria das cidades.”

    • Caro Aloísio,

      Em nome do Ramis Tetu, agradeço sua manifestação!

      Abraços

  2. As árvores da Z. Oeste de SP, foram plantadas pela Cia City há mais de 50 anos.
    Eu creio que o estrangulamento das raízes e podas mal feitas são as maiores agressões e causa das quedas das árvores.

    • Oi Teresa,

      O Alto da Lapa foi projetado por Barry Parker na década de 1920, tendo a assessoria do paisagista francês Joseph Bouvard. Vinte anos mais tarde o bairro tinha a arborização mais rica da cidade, com mais de dois mil exemplares.

      É uma pena que a prefeitura não valorize esse patrimônio, condenando-as a uma morte lenta causada por fungos, podas erradas e estrangulamento dos troncos na suas bases, impossibilitando- as de captar a água necessária para alimentá-las.

      Abraços

  3. ACHO QUE O PROBLEMA É NÃO TER UM PLANEJAMENTO URBANO…CADA UM PLANTA OQUE QUER EM FRENTE SUAS CASAS,NÃO HÁ FISCALIZAÇÃO…

    • É verdade Silvia,

      As Secretarias do Verde Municipais deveriam estar mais envolvidas com a arborização urbana, indicando e plantando as espécies corretas para cada situação.

      Agradecemos sua opinião!

      Abraços

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