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Paisagismo e Jardinagem

Grafite e Pichações

Como paisagista, não podia deixar de opinar sobre esta controvertida polêmica.

Jean-Michel Basquiat (1960 – 1988)

Sim, porque minha atividade profissional não se resume a cultivar plantas de forma vistosa, agradando endinheirados. Entro de cabeça neste debate com a convicção de quem enxerga o contorno urbano como algo que é compartilhado a cada momento, a pé, andando de carro, de ônibus, de bicicleta ou contemplando-o desde uma janela qualquer. E é aqui que começam meus questionamentos. Uma cidade é alicerçada lentamente, cresce ao longo dos tempos partindo às vezes de uma oca indígena ou de um povoamento que começou ao acaso e prosperou graças as vantagens que um rio próximo oferecia ou a posição geográfica que lhe permitia defender-se de ataques invasores.

Crânio

Crânio

Foi assim que surgiram cidades como Atenas, Damasco, Pequim, Cairo, Cuzco e São Vicente. Elas foram conforme o clima, o solo e a fauna, desenvolvendo uma cultura prática e intelectual que lhes deu o modo peculiar que prevalece até hoje. É claro que grandes modificações ocorreram para que cada uma delas criasse um estilo de vida, um jeito de pensar e uma paisagem urbana que as caracteriza. Mas conservaram um idioma enriquecido com gírias, um hábito alimentar e costumes folclóricas que fundamentaram um pensamento ético-político.

Edifício Santa Mônica, Tomie Ohtake

Edifício Santa Mônica, Tomie Ohtake

Cada uma delas desenvolveu suas expressões artísticas e algumas, como é o caso da cidade de São Paulo, viu nascer Mário de Andrade, Arcangelo Ianelli, Clara Sverner e Oduvaldo Vianna. São Paulo tem um jeito graças a eles e aos que, mesmo nascendo longe, viveram sob seu céu. Nas últimas décadas empenas cegas dos edifícios, viadutos e muros se entregaram – involuntariamente – aos artistas urbanos que grafitavam esses espaços para expressar suas críticas, crenças religiosas, pensamentos políticos, convicções futebolísticas e muitas vezes suas vaidades. Eles se mesclam com os pichadores que marcam monumentos e até asfalto com frases insultantes de suas gangues ou rabiscos indecifráveis ( não por causa do hermético sentido, mas pelo insignificante apelo vazio).

Fonte Monumental (pichada), de Nicolina Vaz de Assis (1923) Praça Júlio Mesquita - SP

Fonte Monumental (pichada), de Nicolina Vaz de Assis (1923) Praça Júlio Mesquita – SP

Reverencio Rothko, Pollock e Basquiat, cujos grafites, lá fora, externavam uma arte vibrante e reconhecida pelos marchands e pelos cidadãos que contemplavam suas obras. Admiro Os Gêmeos Gustavo e Otávio Pandolfo, o Kobra, o Crânio, o Daniel Melim e outros paulistanos que pintam paredes com a autorização e o aplauso da maioria. E sou fã também do mural no Edifício Santa Mônica, ao lado do Largo da Memória e da estação de metrô Anhangabaú, obra da saudosa Tomie Ohtake.

Prédio pichado na Av. Ipiranga, São Paulo

Prédio pichado na Av. Ipiranga, São Paulo

 

Mas, não me obriguem a gostar dos caóticos desalinhos que, sob o pretexto de uma arte duvidosa e sem nenhuma técnica, devemos suportar. A cidade é de todos, entretanto todos devemos respeitar os limites das nossas liberdades, não invadindo o espaço público com nossas pretensões artísticas.

Raul Cânovas nasceu em 1945. Argentino, paisagista, escritor, professor e palestrante. Com 50 anos de experiência no mercado de paisagismo, Cânovas é um profissional experiente e competente na arte de impactar, tocar, cativar e despertar sentimentos nos mais diversos públicos.

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