Paisagismo e a ética da estética

ago 25, 2016 por

Os princípios morais, quando abordados desde o ponto de vista ético, aspiram o bem-estar das pessoas. Sociólogos, psicólogos, antropólogos, buscam essa satisfação baseados em conceitos filosóficos trabalhados em profundidade por Aristóteles (384 a.C. – 322 a. C.) em seu Liceu, onde se discutia o amor à sabedoria, englobando também questões como botânica e biologia.

Aristóteles (384 a.C. - 322 a. C.)

Aristóteles (384 a.C. – 322 a. C.)

Hoje nos deparamos com discussões éticas limitadas à política, entretanto devemos reconhecer que cabe a nós, cidadãos, a responsabilidade de lavrarmos um destino melhor, onde cada mulher e cada homem faça sua parte, construindo uma sociedade feliz.

Voltando um pouco aos gregos, particularmente ao período helenístico e a seus princípios de dignidade, eles usavam um substantivo que encerrava o ideal de conduta: Kalokagathia, cujo significado podemos traduzir como “belo” e “bom”. Afirmavam que para alcançar o belo deveria ser pensado em primeiro lugar o enfoque virtuoso, caso contrário poderia se incorrer em algo fútil e vazio. Um exemplo disto é o Partenon, templo construído em Atenas no século V a. C. em honor a Palas Atena, deusa da sabedoria. O projeto – dos arquitetos Calícrates e Ictinos – criou a proporção áurea, valendo-se da álgebra e tornou-se, para muitos especialistas, a obra mais perfeita executada pelo homem. É sugestivo que os ornamentos feitos posteriormente, foram idealizados pelo célebre escultor Fídias, para destacar a beleza da obra, no entanto, desde os primeiros esboços os arquitetos foram atrás da precisa excelência. Se empenharam, somente, na busca do “bom”.

Partenon

Partenon

O paisagista do século XXI, diferentemente de seus antecessores, deve estar comprometido com o conforto salutar que um espaço a céu aberto deve oferecer. Designers, arquitetos, estilistas, enfim, aqueles que de algum modo norteiam o uso dos recursos fundamentais de nosso cotidiano, procuram inovar centrando seus produtos cada vez mais na funcionalidade, eliminando excessos e preenchendo deficiências que, como afirmava Aristóteles, são marcas viciadas que impedem a observância da mediania como uma marca de virtude. O jardim, mais do que nunca, é o refugio que nos alberga quando precisamos de equilíbrio e de paz. Por isto deve ser pensado se valendo da ética, da estética, onde o conjunto dos elementos – plantas, mobiliário, etc. – sejam harmonizados, não apenas para um resultado cenográfico, mas para serem sentidos, favorecendo nossas emoções mais puras e genuínas.

Creio, igualmente, que os produtores de plantas usadas nos jardins devem, acima de tudo, usar técnicas que excluam produtos tóxicos para o combate às pragas e doenças, privilegiando métodos alternativos, assim como também evitar o abuso de fertilizantes químicos que mais do que estimular o crescimento das mudas as condenam a sofrimentos. A ética deve ser praticada de maneira ampla, não só com seres humanos mais de forma idêntica com as plantas. Isto é um caminho digno que nos conduz à felicidade.

Paisagistas, viveristas e empresários do setor de jardinagem devem ter por hábito uma conduta moral nas suas práticas, levando em conta que a ética da estética se constrói com o hábito cotidiano das atitudes repetidas, sustentando atos justos e valores prevalecentes, acima dos modismos que, inoportunamente, nos condenam muitas vezes a suportar um paisagismo antiquado e fora da realidade social. Depois de implantado, o jardim, deverá evoluir livremente, sem os artifícios que ocasionalmente lhe impõem inicialmente. Seu valor fundamental estará na percepção de seu equilíbrio e na nossa reconciliação com a natureza.

Raul Cânovas nasceu em 1945. Argentino, paisagista, escritor, professor e palestrante. Com 50 anos de experiência no mercado de paisagismo, Cânovas é um profissional experiente e competente na arte de impactar, tocar, cativar e despertar sentimentos nos mais diversos públicos.

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6 Interações

  1. Rejane Luna

    Cidade: Recife - PE

    Carissimo Raul, tenho um fascínio pela Grécia que me acompanha por longas datas. Participando recentemente de um curso sobre paisagismo litorâneo em Igarassu/PE escutei você mencionar um termo grego que significava “belo e bom”. Acessei a Internet no mesmo instante e aprendi Kalokagathia.
    Adorei o texto, principalmente quando você coloca a ética aplicada de maneira igualitária com pessoas e plantas. Eu complementar ia também com os animais. Enfim, com a natureza. Parabéns pelo trabalho.

    • Obrigado Rejane,

      Concordo com você. Os animais devem ser tratados com respeito e, claro, com carinho.

      Abraços e até nosso próximo encontro!

  2. ana carraro

    Cidade: PELOTAS - RS

    Belíssimo texto Raul! Adorei em especial a frase “O jardim, mais do que nunca, é o refugio que nos alberga quando precisamos de equilíbrio e de paz. Por isto deve ser pensado se valendo da ética, da estética, onde o conjunto dos elementos – plantas, mobiliário, etc. – sejam harmonizados, não apenas para um resultado cenográfico, mas para serem sentidos, favorecendo nossas emoções mais puras e genuínas.”

  3. Márcio Benites Sanches

    Cidade: São Paulo - SP

    Raul.. belo texto e pesquisa… Aprendendo sempre!!! apreciação!!!